SEMAE

 Santa Catarina lidera estudos inéditos sobre qualidade das águas

Pesquisadores da Udesc Alto Vale, em Ibirama, estão à frente de um projeto pioneiro de cooperação técnica e científica com a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e da Economia Verde (Semae) de Santa Catarina. Até o final de 2028, o Programa SC Águas deve estabelecer um conjunto inédito de metas de qualidade para todos os corpos hídricos do estado. A classificação é chamada de enquadramento e serve para planejar o melhor uso das águas.

A pesquisa avaliará tanto as águas superficiais (de rios, lagoas e estuários) quanto subterrâneas, cujo monitoramento é “insuficiente” no país, de acordo com relatório divulgado em 2025 pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Estudos deste recurso natural pouco conhecido podem subsidiar um plano de gestão contra a seca em Santa Catarina.

“Ainda não temos clareza sobre o potencial de aproveitamento das águas subterrâneas”, afirma João Marcos Bosi Mendonça de Moura, coordenador-geral do Programa SC Águas e professor da Udesc, vinculado ao Departamento de Engenharia Civil, no Centro de Educação Superior do Alto Vale do Itajaí (Ceavi).

Neste momento, a equipe discute os valores de referência que vão subsidiar a análise de qualidade das águas subterrâneas. Os resultados devem direcionar quais aquíferos têm mais chance de ser preservados. A partir disso, vão desenvolver medidas de prevenção e uso sustentável dos recursos hídricos.

Uma dessas possibilidades está relacionada ao planejamento contra as secas em Santa Catarina. Segundo o professor, águas subterrâneas são uma alternativa de manancial para a escassez hídrica. Por isso, o uso é estratégico para o combate à estiagem, embora deva ser feito cautelosamente e baseado em evidências científicas, alerta.

O diagnóstico inicial dos pesquisadores indicou que a região Oeste de Santa Catarina apresenta situação de risco de seca. Devido às atividades agropecuárias intensas, que provocam alto consumo dos recursos hídricos, a demanda de água pode ser maior do que a oferta proporcionada pelos rios.

Com investimento total de R$ 12,7 milhões do Governo do Estado, o Programa SC Águas vai gerar estudos científicos e fornecer apoio técnico e administrativo às bacias hidrográficas do estado. As ações respondem a demandas estipuladas pelo Plano Estadual de Recursos Hídricos e pelos Planos de Bacias. Mais de cinquenta bolsistas devem compor a equipe nos próximos meses; 26 já fazem parte.

Esta é a primeira vez que uma única entidade executiva, a Udesc, é responsável por prestar suporte técnico, de pesquisa e de inovação a todos os comitês de bacia do estado. Segundo Rogério Simões, vice-coordenador do Programa SC Águas e professor da Udesc Alto Vale, os estudos científicos são inovadores devido ao seu potencial de alto impacto, já que abrangem todo o comitê, e não apenas as sub-bacias.

Iniciativa pioneira

Até 2024, 14 unidades da federação emitiram atos normativos para classificar os corpos d’água, de acordo com a Resolução Conama nº 357/2005 do Ministério do Meio Ambiente. Os parâmetros de avaliação incluem oxigênio dissolvido, demanda da bioquímica de oxigênio, fósforo total, condutividade, turbidez e coliformes termotolerantes, e dividem os corpos em cinco classes principais. 

Contudo, o enquadramento das águas feito pelos estados, até então, é parcial, na avaliação do professor João Marcos. Ou porque desconsidera a legislação vigente, ou por não englobar todos os corpos hídricos (superficiais e subterrâneos) do território.

O panorama se mantém em 2026, segundo levantamento mais recente sobre bacias hidrográficas realizado pela ANA.

Neste cenário, a iniciativa pioneira da Udesc chamou a atenção do órgão federal, que deve realizar uma visita técnica em julho para avaliar em que medida ela pode ser replicada a outros estados, informa o coordenador.

Lançamento de Power BI

Em funcionamento desde novembro de 2025, o Programa SC Águas lançará, no dia 11 de junho, uma ferramenta Power BI contendo todos os planos de bacias hidrográficas de Santa Catarina. Trata-se de um dos primeiros resultados concretos do projeto. 

A plataforma “permite conhecer os rumos que a gestão de recursos hídricos da sua região vai tomar”, explica o professor João Marcos, e será atualizada no segundo semestre, possibilitando que usuários acompanhem o progresso na execução de cada plano.

Para Vinícius Constante, gerente de Saneamento e Gestão de Recursos Hídricos da Semae, a ação é uma forma de divulgar conhecimento técnico e científico.

“Embora não seja uma política muito difundida entre a população, a gestão da água interfere no dia a dia de todo o mundo. É fundamental não só para a subsistência, mas para o desenvolvimento de atividades econômicas. Alguns usos exigem água em maior quantidade ou qualidade – por isso, é preciso distribuí-la adequadamente para garantir que o ecossistema continue sobrevivendo”.

Parceria com o ProfÁgua

O acordo de cooperação com a Secretaria fortaleceu a criação do Mestrado Profissional em Gestão e Regulação de Recursos Hídricos (ProfÁgua) na Udesc Alto Vale, programa que funciona em rede nacional e é ofertado a outras 25 universidades brasileiras. 

A alta procura pelo curso posicionou a Udesc como a terceira instituição mais concorrida do ProfÁgua em 2026.

No próximo semestre serão distribuídas bolsas à turma ingressante para o desenvolvimento de pesquisas científicas junto às 16 bacias hidrográficas de Santa Catarina.

A previsão é que os estudos forneçam novos dados sobre a qualidade, o consumo e as demandas de água nas regiões. Devem ser monitorados rios grandes, pequenos e de áreas de transição entre a água doce e salgada (salobra).

Parlamento das águas

As pesquisas que serão realizadas no ProfÁgua são parte do apoio técnico e científico que a Udesc Alto Vale está fornecendo aos comitês de bacias. Instituídos no Brasil desde 1997, os órgãos colegiados são conhecidos como “parlamento das águas” e possibilitam a participação da sociedade nas tomadas de decisão sobre o planejamento do recurso natural. Reúnem representantes da sociedade civil (associações ambientais), do poder público (secretarias, autarquias, prefeitura) e usuários da água (indústria e agronegócio).

Conforme explica o professor João Marcos, as discussões dos comitês sobre enquadramento das águas produzem impactos diretos:

“Indústrias e estações de tratamento precisam estar atentas à classe dos rios, pois o lançamento de esgoto e de efluentes não pode piorar a qualidade da água. Produtores agrícolas de arroz, que utilizam alto volume de recursos hídricos, devem solicitar uma licença para captação, a outorga. Tudo isso é discutido nos comitês, que vão mediar os conflitos pelo uso das águas”, explica o professor João Marcos.

Comitês catarinenses

Santa Catarina possui 16 comitês ativos. O mais antigo, de 1993, é responsável pelo gerenciamento dos rios Cubatão e Madre, na Grande Florianópolis. Comitês possuem composição média de 30 membros, mas alguns, como o de Itajaí, chegam a 60.  

As demandas de cada órgão também variam. Segundo o coordenador do Programa SC Águas, comitês do Oeste catarinense costumam enfrentar questões relacionadas à escassez hídrica. No Litoral Norte, Itajaí debate medidas de enfrentamento às inundações. Conflitos pelo uso da água são constantes no Sul do estado, porque a oferta nem sempre preenche a alta demanda. Em Lages, a instalação de empreendimentos hidrelétricos preocupa pelos impactos que pode causar aos rios e ao meio ambiente; caso semelhante ao de Joinville, com o lançamento de efluentes industriais nas águas.

Além do eixo sobre pesquisa e inovação, o Programa SC Águas também atua na extensão universitária. Comitês estão recebendo apoio técnico e administrativo de bolsistas de diferentes instituições para auxílios diversos (planejamento das atividades, realização de assembleias, atualização de documentos, comunicação e divulgação científica). O objetivo é capacitar os órgãos para que tenham infraestrutura adequada à melhor tomada de decisão.

“Não adianta executar estudos se os comitês não possuem estrutura mínima para funcionar”, reflete o coordenador do projeto. “Por isso, a extensão dá suporte para que o órgão consiga exercer as suas atribuições previstas em lei”. 

Segundo Eduardo Marques Martins, coordenador-geral do Fórum Catarinense de Comitês de Bacia Hidrográfica e presidente do Comitê Canoas e Pelotas, o auxílio técnico prestado pelos bolsistas otimiza o trabalho dos órgãos: 

“O Programa SC Águas foi fundamental para que os Comitês pudessem recuperar o fôlego nas atividades de gestão de recursos hídricos das bacias”.

Os benefícios, reflete o coordenador, chegam até o consumidor final na forma de fiscalização e cobrança de medidas para garantir água de qualidade aos usuários das bacias. 

Integração de dados

Combinando pesquisa e extensão, o Programa SC Águas, na avaliação do professor João Marcos, tem potencial para integrar diferentes agentes. O coordenador afirma que dados sobre o uso das águas provêm de diferentes fontes, o que acaba por dispersá-los. Por isso, o contato com órgãos de licenciamento ambiental, secretarias de estado, empreendimentos hidrelétricos e concessionárias de saneamento é necessário para unificar as informações, a fim de obter um panorama mais amplo sobre a gestão de recursos hídricos no estado.

Para organizar este conjunto de dados, o Programa deve propor, até o final de 2028, uma rede de monitoramento das águas subterrâneas. Outro resultado previsto é a sistematização de um protocolo para situações de seca em Santa Catarina contendo ações de prevenção. Encerrada a fase de planejamento e estruturação, a expectativa é de que, nos próximos meses, a equipe avance para a execução de prognósticos. 

Contate o pesquisador

João Marcos Bosi Mendonça de Moura é professor da Udesc no Departamento de Engenharia Civil e coordenador local do Mestrado Profissional em Rede Nacional em Gestão e Regulação de Recursos Hídricos (ProfÁgua) em Santa Catarina. Possui doutorado em Engenharia Ambiental pela Universidade Regional de Blumenau, com período sanduíche realizado na Universitat Politècnica de Catalunya, em Barcelona (Espanha). Atua nos seguintes temas: manejo e drenagem de água pluviais, gestão de recursos hídricos, gestão de riscos de desastres.
E-mail: joao.moura@udesc.br